O
cauri e outras conchas coloridas circularam como moeda na África
durante muitos séculos.
A.
Félix Iroko
DESDE
tempos remotos até 0 século XX, inúmeros
objetos foram utilizados como moeda na África subsaariana:
varetas ou pulseiras de metal, alguns tecidos, sal, pérolas,
botões de camisa e conchas. Estas últimas, muito
difundidas, foram os meios de troca que circularam em áreas
de maior extensão.
Moluscos de origem marinha, as conchas
de cauris, marginelas e olivas foram as que se destinaram com
maior freqüência a esse uso. Os cauris (Cypraea annulus
ou Cypraea moneta) são conchas brancas ou amarelo-claras,
do tamanho de uma amêndoa. A valva dorsal é convexa,
enquanto a ventral apresenta uma fenda. São encontradas
apenas em mares quentes, principalmente no Pacífico Sul
e no oceano Índico. A maioria dos cauris que circularam
na África durante mais de mil anos procedia dos arquipélagos
das Maldivas e das Laquedivas, no sudoeste da Índia, e
das ilhas Zanzibar e Pemba, ao largo da costa oriental da África.
Despachados como mercadoria em seu
local de pesca ou de coleta, os cauris freqüentemente serviam
de lastro para os navios árabes, judeus ou europeus que
os transportavam até os portos do continente africano,
nos quais eram novamente vendidos como mercadorias.
As marginelas (Marginella ou Marginellidae)
são moluscos marinhos de concha pequena e colorida, principalmente
as procedentes das costas ocidentais da África. Também
são encontradas nas regiões marinhas intertropicais
da América, particularmente do Brasil.
Brilhantes como ágatas e mais compridas que os cauris,
as olivas compreendem mais de 300 espécies. A mais utilizada
como moeda na África subsaariana era a Olivancillaria nana.
Recolhida nos arredores de Luanda, ela constituía a "reserva
monetária" exclusiva dos reis do Congo até
a chegada dos portugueses à região,no final do século
XV.
A
ÁREA DE CIRCULAÇÃO DAS MOEDAS-CONCHA
Até o século XVI, o
nzimbu, nome congolês da Olivancillaria nana, circulava
no reino do Congo, enquanto a marginela se limitava à bacia
do Níger e o cauri difundia-se na região que constituiria
posteriormente a África Ocidental e, em certa medida, na
África Central.
Entre o século XVI e o final do século XIX, do Senegal
a Uganda, do Sahel à Costa dos Escravos (Golfo da Guiné),
o cauri foi mais difundido que qualquer outra moeda-concha. Mas
foi pouquíssimo utilizado no Saara e jamais chegou a se
implantar na África do Norte ou na África Austral.
Esse período marca também
o apogeu da circulação das marginelas nas Áfricas
Ocidental e Central, onde eram utilizadas pelas etnias da bacia
do Congo em suas transações comerciais.
Já as olivas, sempre utilizadas exclusivamente pelos bantus,
parecem jamais ter circulado fora das fronteiras congolesas. Para
arruinar os reis do Congo, os portugueses trouxeram das costas
brasileiras outras espécies de olivas, além de cauris
do oceano Índico. Dessa forma, paulatinamente o nzimbu
foi retirado da circulação monetária.
Os portugueses exportaram ainda olivas
de Luanda e introduziram-nas como moeda fracionária, juntamente
com os cauris, no tráfico de escravos negros do Brasil
colonial.
As conchas não eram simples
objetos de troca, pois possuíam todos os atributos das
verdadeiras moedas. Como padrão e reserva de valor, constituíam
à sua maneira instrumentos de câmbio e eram um símbolo
de riqueza.
MOEDAS
VERDADEIRAS, MOEDAS FICTÍCIAS
Enquanto moeda verdadeira, as conchas
permitiam adquirir inhame, facas, bois ou escravos e remuneravam
qualquer tipo de serviço. Enquanto moeda fictícia,
serviam igualmente como medida de valor para fixar o preço
de algumas mercadorias, sem forçosamente intervir em seu
pagamento. No século XIX, o explorador francês Luís
Gustave Binger transcreveu a conclusão de um acordo entre
dois comerciantes do norte de Gana: "A cabaça de sal
vale 2.000 cauris; o cento de kolas, 1.000 cauris. Ofereço-te
então 200 kolas por uma cabaça de sal."
Portanto, as conchas favoreciam as
transações e constituíam excelentes indicadores
da variação no tempo e no espaço do valor
das mercadorias. Para maior comodidade, eram agrupadas para formar
múltiplos: depois de perfuradas, eram atadas em conjuntos
de 12, 20, 40 ou 100 unidades, segundo o sistema de numeração
utilizado no espaço comercial em que circulavam.
Assim como os cauris, os musangas,
discos de concha de caracol que circulavam em algumas regiões
da África, eram atados através de um orifício
central para formarem colares. Dez colares, medidos da extremidade
do dedo maior do pé ao calcanhar, no início do século
XX, valiam um doti ou 3,60m de tecido azul; dez colares medidos
do dedo menor ao calcanhar valiam um doti de qualquer pano de
outra cor.
Essas moedas-concha da África
subsaariana deram origem, em algumas regiões, a verdadeiras
políticas monetárias. As autoridades tradicionais
ou políticas - onde existia um poder centralizado - asseguravam
sua circulação e regulamentavam sua importação.
Ao tomarem medidas para evitar a superabundância de conchas,
geradora de inflação, ou sua escassez, que dificultaria
as transações comerciais, os soberanos exerciam
um verdadeiro poder econômico. De Abomé à
Costa dos Escravos, assim como no Congo, eles praticavam uma política
monetária rigorosa, de reconhecida eficiência.
Desde o início da era colonial
as conchas começaram a perder paulatinamente seu valor
monetário e deixaram de intermediar as transações
comerciais. Atualmente, apenas os cauris continuam a circular,
ainda que muito timidamente, entre os povos do sudoeste de Burkina
Faso e do norte de Gana. É a única região
do mundo onde conseguiram conservar em parte sua função
de moeda. Só não se sabe até quando.
(Traduzido por Clóvis Alberto Mendes de Moraes)