Cobiçado
por ser escasso, mas suficientemente abundante para não faltar,
o cacau, possuidor dos atributos do deus Quetzalcóatl, era
a moeda prestigiosa da América pré-colombiana.
Piedad
Peniche Rivero
QUANDO
os conquistadores espanhóis chegaram ao México,
no século XVI, os grãos de cacau faziam as vezes
de moeda. Os cronistas notaram, com assombro: o dinheiro crescia
nas árvores.
Naquela época existiam três
grandes regiões produtoras de cacau: a de Chontalpa e Soconusco
(México), e a região do rio Ulua (Honduras). A produção
e a circulação de cacau, assim como seu consumo,
eram fortemente controladas por nobres e mercadores do vale do
México e de Iucatã. Os baixos rendimentos do cultivo
e as dificuldades do transporte aumentavam o custo social do cacau
e, em conseqüência, seu preço.
Como outras moedas primitivas, o
cacau não cumpria todas as funções próprias
a um instrumento monetário. Assim, apesar de ser o principal
meio de intercâmbio, tanto os astecas como os maias utilizavam
como medida de valor a manta (quachtli), peça de algodão
que representava uma quantidade determinada de força de
trabalho, isto é, de valor. Em Iucatã a manta equivalia
a 450 horas de trabalho. Apesar de não conhecermos o equivalente
em horas de trabalho da manta do tributo asteca, sabemos, por
outro lado, que seu valor em cacau era de 100 grãos, aproximadamente,
segundo as flutuações da produção.
Pode-se afirmar, então, que
o valor (em força de trabalho) da maioria dos bens que
circulava podia ser expresso em cacau, enquanto o preço
deste só podia ser fixado em mantas, cujo valor era invariável.
A impossibilidade de fragmentar a manta e a conseqüente necessidade
de um meio circulante dariam origem ao uso "monetário"
do cacau, determinando a conversão recíproca entre
o cacau e a manta.
Com o cacau, os antigos mexicanos
preparavam uma bebida cerimonial cujo consumo ficava restrito
aos nobres e aos guerreiros: o chocolate. Uma forte restrição
pesava sobre o consumo do cacau, e os plebeus só podiam
beber pulque, bebida alcoólica obtida do agave. Este tabu
reforçava o poder da nobreza, pois eram atribuídas
ao chocolate propriedades mágicas: era o alimento dos deuses.
Talvez fosse associado ao chocolate
o sangue dos sacrifícios humanos oferecidos aos deuses,
e especificamente do sacrifício que consistia em arrancar
o coração das vítimas em honra ao deus Quetzalcóatl-Kukulcã
(a serpente emplumada).
Segundo os mitos mexicanos, Quetzalcóatl, "jardineiro
do paraíso", introduziu o cultivo do cacau entre os
homens quando vivia em Tula, e ao partir para o litoral enterrou
o "dinheiro" que circulava então: conchas, plumas
e pedras preciosas. Então a moeda-cacau se revestiu dos
atributos mágicos do deus do qual se originara.
Os astecas foram os últimos
senhores do vale do México. Esse florescente império,
baseado no domínio sobre os povos que até então
haviam disputado a posse do vale, devia sua prosperidade ao tributo
de 38 províncias. Entre elas a de Soconusco, que, segundo
o Código Mendoza, tributava 400 cargas de cacau das 980
que o Estado consumia.
O
VALOR DE TROCA DO CACAU NA SOCIEDADE MAIA
O cacau circulava desde armazéns
especiais, chamados "casas do cacau", até os
templos e quartéis militares, que representavam a grandeza
imperial do México-Tenochtitlã e suas cidades aliadas
e onde, segundo os cronistas, os soldados astecas consumiam grandes
quantidades de chocolate.
Entre os maias, à diferença
da sociedade asteca, a elite política coincidia em geral
com a elite comercial,, e o cacau entrava na vida social graças
ao comércio, e não como tributo.
Em Iucatã o intercâmbio
de cacau coexistia com uma produção equivalente
de mantas, o que punha em relação de valor todas
as mercadorias, inclusive certas terras, cuja produção
era enviada ao mercado. Da necessidade de utilizar a mão-de-obra
das comunidades camponesas nasceu a escravidão produtiva:
os homens eram comprados e vendidos por cacau. Segundo Diego de
Landa, o cronista dos maias de Iucatã, "o ofício
a que mais estavam inclinados (era) o de mercadores, levando sal,
roupas e escravos para as terras de Ulua e Tabasco, trocando-os
todos por cacau e contas de pedras mais finas e melhores..."
O aumento da produção
de cacau, graças aos escravos maias de Iucatã e
também astecas, favoreceu provavelmente a circulação
de cacau entre as classes baixas, sempre sob o controle da nobreza.
Diversas crônicas coloniais e etnográficas assinalam
que o cacau era usado como oferenda e doação nos
ritos de passagem, como casamentos e funerais.
Que papel cabia ao cacau na acumulação
de riqueza? Os grãos de cacau tinham que ser consumidos
no prazo de um ano ou um pouco mais. Mas as diferentes estruturas
sociais dos astecas e dos maias determinavam também comportamentos
diferentes a esse respeito. Assim, no vale do México, os
comerciantes tinham que se mostrar muito discretos para não
ofender o imperador com suas riquezas. Por isso, segundo Frei
Bernardino de Sahagún, vestiam-se humildemente, inclusive
com mantos rasgados. A cobiça da nobreza obrigava os comerciantes
pochtecas a consumir seu cacau em grandes quantidades, a ofertá-lo
nos templos ou entregá-la como donativo.
No México, o cacau estava
ligado ao prestígio e simbolizava uma posição
social. Em troca, entre os itzas de Iucatã a riqueza do
cacau, da qual faziam alarde os grandes senhores com seus numerosos
escravos e seus palácios decorados com grande refinamento,
servia também para estimular a produção,
já que ele podia ser aplicado em cultivos comerciais e
na aquisição de mão-de-obra. Por essa razão,
provavelmente os espanhóis conservaram o uso monetário
do cacau em Iucatã e substituíram a manta pelo real,
a moeda espanhola, como medida de valor, sempre em relação
com as flutuações da produção de cacau.
No entanto, ainda em pleno século
XIX, o cacau seria utilizado para pagar salários em Iucatã
e outras regiões da América Central, como se lê
no testemunho do viajante norte-americano J.L. Stephens, em 1842:
"Notei (...) que os grãos de cacau circulavam entre
os índios como moeda. Em Iucatã não há
moeda de cobre nem moeda menor que a de meio real (...) Como os
salários dos índios são baixos e os artigos
que compram são realmente necessários para a vida...
esses grãos de cacau ou partes de um meio real são
a moeda mais comum entre eles."
(Traduzido por Francisco José P.N. Vieira)